As primeiras peças gráficas feitas em litogravura no Brasil foram destinadas principalmente para os rótulos. Era uma época (década de 1820) em que a produção industrial do país engatinhava lentamente, enquanto os produtos importados dominavam o mercado.

As manufaturas nacionais desse período, em sua maioria, não pertenciam a brasileiros. A visão de de quem exercia a atividade – e de quem concebia as embalagens – era a de uma pessoa de fora. Por isso, nossos primeiros esforços em design de produto representavam o imaginário europeu sobre o Brasil.

Índias usando braceletes metálicos (braceletes metálicos????) ou posando em uma paisagem tropical estamparam diversos rótulos, como o do Xarope d’Abacachi e do fumo Ramon Anido.

Xarope d'abacachi

Imperial fábricaFumo de MinasFumo dara gaudiumFábrica Candelaria

A idealização do Brasil como uma nação indígena não é característica exclusiva da década de 1820, pois arrastou-se durante muitas décadas. Ela está presente, por exemplo, nas embalagens de um produto bem conhecido por nós, o Catupiry.

Em 1911, o imigrante italiano Mário Silvestrini decidiu dar ares nacionais ao então criado requeijão. Afinal de contas, era preciso destacar o fato dele ser feito em terras brasileiras. Escolheu, então, uma palavra indígena – que traduzia o conceito “bom, excelente” – para dar nome ao produto, que foi acompanhado por traços estilo art deco, sucesso na Europa de 1910. Nada mais Brasil do que tupi guarani, não é verdade? Pelo menos o significado faz jus ao sabor.

Catupiry

A hipocrisia também se via presente no ideário de um Brasil moderno, disposto a acompanhar o espírito liberal de nações estrangeiras. O fim da escravidão foi representado em embalagens de tecido da época, acompanhada pela frase “Agora sim”. Contrário a tudo isso, o Brasil continuava sendo um país escravocrata.

Agora sim

Interessante é pensar no impacto da circulação dessas imagens em um contexto em que apenas 16% da população era alfabetizada. A litogravura, por sua vez, era uma tecnologia de comunicação bastante forte na época, capaz de bombardear de imagens toda uma população que não sabia ler. Há quem diga que as construções simbólicas feitas nessa época reverberam nos dias atuais.

Logo AymoreRetirada do site Aritanasomos iguais

Você encontra mais informações sobre esse assunto no texto “A circulação de imagens no Brasil oitocentista: uma história com marca registrada”. Esse artigo está disponível no livro “O design brasileiro antes do design – Aspectos da história gráfica, 1870-1960”, organizado por Rafael Cardoso numa edição Cosac Naify. As imagens históricas foram retiradas das páginas 08, 09, 14, 17, 18 e 19 deste livro. Catupiry, CBF e Aimoré: famoso Google Images.