Os trinta primeiros minutos do jogo entre Brasil e Alemanha não deixaram dúvidas: “a Copa acabou!”. Pelo menos para nós, brasileiros, que ficamos sem entender o que aconteceu durante a partida. O resultado foi tão inexplicável, que deu até dó daqueles que são responsáveis por produzir sentido sobre os acontecimentos.

Imaginem o fechamento da edição de ontem. A redação em polvorosa para tenter explicar o inexplicável e a equipe de arte tentando criar uma capa que representasse todo o espanto da semifinal no Mineirão – duvidamos muito que alguém já estivesse preparado para o que aconteceu.

Como torcedores brasileiros, seria possível deixar de lado os próprios sentimentos da construção desses textos verbovisuais? Pelo que notamos nesta manhã, a resposta é não. Nada melhor que rir da própria desgraça e olhar para as capas de jornais nacionais e internacionais para conferir como os veículos se posicionaram frente ao acontecido.

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As capas são dispositivos fascinantes. Elas competem pela atenção dos leitores num nível tão acirrado quanto as próprias partidas de futebol. Cotidianamente, distribuem toda a sorte de acontecimentos em uma ordeira disposição espacial. Encarnado nas entranhas do projeto gráfico, o caótico mundo parece mais calmo do que realmente é: já foi relido, digerido e apresentado ao leitor. O que nos intriga é pensar o que pode acontecer com a capa – essa estrutura mais ou menos rígida – quando um acontecimento de imensa mobilização nacional a toma de assalto.

Façam um bolão para adivinhar qual é palavra que mais se repete no conjunto das capas analisadas. Ganhou com uma vantagem de 7×1 quem chutou humilhação em todas as variações possíveis. Em segundo lugar, aparece vergonha e também adjetivos como pior. Essa combinação foi algo frequente em jornais brasileiros e estrangeiros. O Brasil aparece tão umiliati nos jornais italianos quanto humillado nos espanhóis.

Em termos visuais, as capas apresentam desde um David Luiz ajoelhado no gramado em profundo sofrimento até leituras gráficas mais originais.

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Categoria Felipão, o “Vilão”

O brasileiro “O Dia” e o argentino “La hora de Argentina” optaram por trazer a mesma imagem do técnico. O primeiro utilizou um recurso de diagramação bem interessante ao posicionar a manchete impactante entre as mãos do técnico que, ironicamente, sinalizava o placar. A imagem forte dispensou o uso tipográfico do 7×1, comum nos demais jornais, e ainda forçou a associação direta entre a derrota do time e a postura de seu técnico. “Isso saiu de suas mãos, fruto de seu trabalho”: a capa parece falar. O jornal argentino optou pelo trocadilho “Hexa+1” e apresentou o técnico em posição mais centralizada. Apesar do apelo, tipografia e imagem não funcionaram de forma tão impactante. Para o inferno com o hexa em dourado-tom-de-taça! Daremos a vitória foi para a sutileza do jornal “O Dia”.

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Categoria “Deu Branco”

O “Lance!”, o “Jornal NH” e também o “Estado de Minas” expressaram seus sentimentos em branco. O “Lance!” apresentou, em manuscrito, palavras como indignação, revolta, dor, frustração, irritação, vergonha, pena, desilusão e ainda provocou o leitor para que ele mesmo dissesse o que sente e criasse, a seu modo, a sua capa. Bom, a lista é tão grande que talvez fique difícil pensar em algum outro para escrever ali. Mas a ideia de apresentar a capa como algo aberto para a intereferência foi algo bem inteligente. O manuscrito desleixado também funciona como uma ótima sugestão. O “Jornal NH”, por sua vez, decidiu seguir a onda daqueles que apresentaram um personagem em suas capas. O escolhido da vez foi o goleiro da seleção que, desolado, figurava entre os caracteres grotescos, pesados e contundentes da pergunta. O “EM” optou por uma narrativa temporal. Esferas alemãs sinalizavam o momento em que cada gol aconteceu e, depois dessas sete, seguia uma do Brasil, solitária. Como diria Galvão Bueno, abaixo da imagem do torcedor inconsolado, o impresso também provocava o seu leitor: “Quer mesmo lembrar como foi? Então vire a página”. Corajoso, o “EM” correu o risco de permanecer fechado para sempre. Dentre os três jornais, daremos a vitória para o “Lance”, que fez um uso mais criativo de todo esse espaço em branco.

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Categoria “Velório”

Alguém morreu? Não nos gramados do Mineirão. Apesar disso, quatro jornais trouxeram o clima de luto para a capa de seus periódicos: o “Jornal do Commercio”, de Recife, decidiu gritar a palavra “Luto” em todo o seu potencial tipográfico e em alto contraste. A capa fanfarrona do “Meia Hora” também se utilizou do preto para a deliciosa zoeira editorial. A falta de vontade de fazer a capa fez, certamente, a alegria de vários de seus leitores e, é claro, a nossa. O jornal “Super Esportes” trouxe o brasão brasileiro se transformando em cinzas num profundo preto desiludido. O proclamado “Fim do país do futebol” aproxima também o esporte de sua inevitável morte. O jornal “A tarde” não se fez de rogado em talhar sua própria inscrição e transformar sua capa numa verdadeira lápide. Na categoria luto, ficamos com o “Meia Hora” e seu bom humor mórbido.

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Categoria “Nunca antes na história deste país”

O “Diário de Pernambuco” e o “Extra” apresentaram uma comparação histórica e, cada um a seu modo, passaram o trofeu abacaxi da selação de 1950 para esta. O primeiro brilhou ao apresentar o contraste de imagem e tipografia na aproximação das duas situações. Já o segundo foi bastante ousado em apresentar apenas uma foto da época, apostando que o sentimento de derrota do dia de hoje é mesmo atemporal. Nesta categoria, optamos pela ousadia (e nem tanto alegria) do “Extra”.

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Categoria “Perto, porém distante”

Alguns highlights ficaram por conta da capa do “Metro” e seu placar imerso na escuridão e que parece tão distante quanto a certeza tão recente de vitória brasileira. Outro destaque bem humorado foi a capa do “Jornal de Santa Catarina”, que, ao modo do “EM”, trouxe cada gol como um indesejado gole na boa e velha cerveja alemã. No nosso julgamento, a associação entre um elemento da cultura alemã tão enraizado no Brasil e a amarga derrota leva o troféu. Com muita dor de cabeça.

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