Desembarquei depois de dez horas de uma viagem de trem. Estação cheia e andança para lá e para cá. Catalão é tão difícil! Surge, então, milagrosamente o guia guardado na bolsa. Muito para ver, um outro tanto para andar e, nesse bate perna, é fácil se perder em algumas fachadas. Em cada quadra, pelo menos, um ou dois painéis em estilo art nouveau catalão.

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Anda, volta, olha placa e mapa. O nome da rua ficou exatamente naquela dobra desgastada do papel. O guia do metrô não durou nem um diazinho sequer. Em meio a zona de turista de primeira viagem, um galhardete colorido quase grita em meio às árvores de outono: “Olha para mim!”.

 

galhardete

“Barcelona inspira” é o chamado para o início do passeio que gostaria de compartilhar com vocês. Essa frase-rapto faz parte de uma ação da prefeitura de Barcelona que apresenta coisas interessantes da cidade, desde sua gente até monumentos bem famosos. E foi numa dessas que fui fisgado pelo Museu del Disseny (Museu do Design), um prédio incrível tanto por sua arquitetura quanto pelo seu conteúdo.
Vou contar dessa experiência com o espaço. Leitura indicada para quem vive de design ou simplesmente aprecia novos olhares para coisas da vida cotidiana.
Bom, então vamos lá! Fiz uma listinha das 13 coisas mais interessantes do espaço. Como é quase impossível resumir tudo, sejam bonzinhos.

 1. “Gente, é alí? Por onde entra?”

“Senõr, por favor”. Meu jeito coringa para iniciar uma conversa e pedir informações. Só nisso, já havia gastado todo o meu espanhol. Depois de olhar fixamente para cada um que me informava e fingir compreender tudo, cheguei a “Plaça de les Glories Catalanes”. Dela, é fácil avistar a Torre Agbar, que é bem famosita. Ao lado, um prédio de arquitetura curiosa, irregular e linda. “Onde entra, Senhor?” Já perguntava em português. Se a forma curiosa deixava dúvidas sobre a entrada, nenhum mistério restava no acesso e uso interno do espaço, graças à sinalização generosa e à divisão interessante em pavimentos. No térreo, galpão de exposições temporárias e um café aconchegante, no primeiro andar a exposição permanente sobre design de produtos, no segundo o assunto era coleções de objetos de arte decorativa, no terceiro o tema era moda e o quarto apresentava uma seleção de peças históricas do design gráfico catalão.

museu

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2. “Hoje eu vou te mostrar, como é lindo o meu mundo… la, la, la la, la”

Design emociona. Cria uma conexão emocional e se torna memorável. O primeiro pavimento, o de design de produtos, se pretende uma coleção de objetos “do mundo para o museu” que representam uma herança cultural catalã.
Os produtos são divididos em grandes categorias, tais como “inovadores”, “históricos”, “modulares”, etc, etc. Mas havia uma categoriazinha danada que me fez ficar ali por pelo menos mais duas horas: a de objetos “evocadores” ou provocativos. Eles são críticas, sátiras, visões bem humoradas do mundo material.
O que merece destaque é o Sofá Ali-Babá, projetado por Òscar Tusquets em 1989. A promessa é a de que você descanse como se estivesse em um conto de fadas.

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3. Luminária

Ainda na categoria de objetos curiosos, há uma luminária de chão que se destaca logo de cara no espaço expositivo. “A luz se veste com elegância” é o jeito bem humorado como o próprio museu descreve o objeto. Já eu pensei em uma luminária-parangolé. O artefato foi criado em 1992 por Josep Aregall e é composta basicamente de aço e PVC. O mais legal sobre ela é o modo como a luz se dissipa no seu interior por meio de uma transição sutil (e sensual) entre claros e escuros.

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4. Na garupa, passió!

Não fazia ideia do que era Motorcycle trials antes de conhecer o primeiro equipamento desenhado exclusivamente para a modalidade esportiva. Bastante popular na Espanha (especificamente na Catalunha), trata-se de um percurso em que o participante pilota motocicletas sem assento, desviando dos mais diversos obstáculos. Em 1968, Leopoldo Milá desenhou o primeiro modelo de motocicleta dedicado ao trial. É a Cota 247 que ainda hoje arranca suspiros com suas linhas elegantes e poderosas.

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5. Design para a salada

É quase impossível ir ao Museu sem se deparar com a imagem de um objeto bem conhecido do nosso cotidiano. A imagem do galheteiro é bem popular e estampa a capa dos catálogos e dos souvenirs. O motivo é que o objeto foi desenhado em 1961 por Rafael Marquina, o inventor deste conceito. Até hoje, mais de cinquenta anos depois do desenho, a silhueta do galheteiro faz com que o desejemos em nossa cozinha ou mesmo fazendo bonito na mesinha de centro da sala de tão delicado e escultórico que ele é. Coisas boas resistem ao tempo.

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6. Hoje (não) vou assim

No terceiro pavimento, o assunto é a moda através das grandes eras. O recorte temporal é de 1550 até 2015 e a roupa é apresentada tendo como parâmetro a construção de silhuetas. O objetivo da mostra é passear pelo tempo tendo em vista a forma como o corpo foi constantemente moldado pela roupa. A silhueta é apresentada como parte do espírito das épocas, uma expressão carregada de sentido e intenções comunicativas. A montagem da exposição é também um ponto alto: de um lado, um manequim de proporções desconstruídas (ou reconstruídas) conforme a silhueta almejada pelos trajes. Andar por ali é se sentir em um filme de época (com uma pesquisa de figurino bem feita :).
O destaque do século XVIII fica por conta do vestido a la francesa, que reduzia a cintura e alargava o quadril. Parece confortável?

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7. No more corsets!

No intervalo entre 1910-1930 é dado o grito: chega de corsets para a construção de uma silhueta artificial e impossível! Andando pela exposição, é a hora de um grande “ufa!”. O peso das roupas e a deformação de séculos anteriores causa uma sensação enorme de falta de ar. Custava muito ser chique (e não só de grana estamos falando).
A primeira guerra mundial marca a ruptura entre o século XIX e a modernidade. Na época, inicia-se a emancipação feminina e o ingresso das mulheres no mercado de trabalho. O volume e exagero dão lugar ao despojamento e elegância dos esguios anos 20.  O vestido acompanha o corpo e se adapta às atividades da vida. Sem sofrimento!

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 8. Um pavimento para chamar de meu

O segundo pavimento é delirante para os amantes de coleções. Todo o andar é ocupado por objetos decorativos agrupados por categorias, usos, materiais, processo de fabricação, etc. A maior parte do acervo é composto por objetos do cotidiano construídos entre o século III (!) e o século XX. O primeiro choque de beleza fica por conta da vinheta que explica a composição do acervo. Sintam como eles são descolados.

Destaque também para o trabalho com tipografia e textura na entrada da galeria.

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9. Os antigos já sabiam

Não é à toa que esse negócio de investir em design dá resultado. É como o xarope que a sua vó te dava: sempre funciona! Falando em remédio, um dos pontos altos da visita ao Museu do Design de Barcelona foi conhecer o conjunto de anúncios dos Laboratórios Uriach’s. A história é a seguinte: o fundador do laboratório, Joan Uriach Feliu, era um visionário com inclinações artísticas. Após a rotina de trabalho, Joan adorava sair por aí e tomar uma com seus amigos pintores, escultores e poetas. Além disso, a família Uriach tinha como hábito viajar mundo afora para pesquisar tendências do setor farmaceutico e ficar por dentro dos últimos gritos dos movimentos artísticos. Eram concatenados. O resultado são essa série de anúncios incríveis que auxiliaram na construção da imagem da marca ao longo dos anos.

 

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 10. El toro grafico

Passar pela Espanha sem trombar com um touro é impossível. Brincadeiras com esses estereótipos culturais à parte, o animal é realmente um símbolo nacional e Manolo Prieto foi um artista gráfico que traduziu essa admiração em imagens. A primeira e bem famosa é o Touro de Osborn, uma silhueta de touro bravo de 15 metros de altura que foi desenvolvida para uma companhia de bebidas e, com o passar dos anos, se tornou objeto de afeto dos espanhóis, sendo considerada um dos símbolos culturais do país.

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O mais legal do trabalho de Manolo é o uso de suas cores, a atualidade da linguagem ilustrativa e suas perspectivas saborosas.

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11. Um capacete tendência

É um lenço? Uma echarpe com estampa da última estação? Nada disso. Isso nada mais é do que um capacete inflável de alta eficiência, segundo suas projetistas. Hovding, como é chamado, nasceu de uma pesquisa de Anna Haupt e Teresa Alstin sobre a obrigatoriedade de uso de capacete para ciclistas adultos na Suécia. As duas pesquisadoras viram uma oportunidade de desenvolver um dispositivo legal de usar tendo em vista sua beleza e funcionalidade. Funciona da seguinte forma: a belezura infla quando o sensor detecta a queda de seu usuário.

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12. O fim da arte em gesso

Todo mundo que já quebrou alguma coisa sabe como gesso coça, esquenta e se torna um martírio ao longo do período de recuperação. A solução para tal problema foi apresentada pelo projeto de Denis Karasahin: uma estrutura de recuperação que pode ser produzida em impressoras 3D, adaptando-se às dimensões do paciente.

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13. É muito fácil, Luciana…

Design sempre pareceu ter forte conexão com a urbanidade. Asfalto, carro na garagem (ou na rua), recursos ilimitados (longe disso!) para produção e energia para colocar em funcionamento praticamente qualquer dispositivo. Projetar para cenários extremos é outra coisa beeeeeem diferente. Foi esse o desafio de Vestergaard Frandsen Inc. ao desenvolver uma solução para a necessidade humana de consumo de água potável em cenários de escassez. O dispositivo LifeStraw é semelhante a um canudo parrudo e promete remover 99,9% de bactérias, parasitas e virus, filtrando até 1000 litros de água em sua vida útil. O site da companhia é http://www.vestergaard.com/

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Estar no Museu do Design é uma experiência verdadeiramente inspiradora. Uma imersão em modos de projetar e, sobretudo, em jeitos de olhar para o mundo criticamente por meio do design. É criatividade em essência, pulsando em artefatos lindos, loucos, deliciosos e memoráveis. Nesta altura do campeonato, a bateria acabou e o celular morreu! (rsrsrs).

final

Deixo o link para o site do museu caso queiram saber mais sobre as coleções.

Numa futura viagem para a terra de Colombo, vale à pena a visita.

Por Ronei Sampaio